Em defesa da biodiversidade

Em defesa da biodiversidade

Por Fernanda Tambelini

O superintendente de conservação da WWF-Brasil, Cláudio Maretti, fala da importância de preservar a biodiversidade e afirma que o Brasil pode liderar uma nova economia baseada em valores sustentáveis.


Natura Ekos – O que é biodiversidade?

Cláudio Maretti – Biodiversidade é o conjunto de formas de vida existentes na Terra. A Convenção sobre Diversidade Biológica, ocorrida durante a Rio 92, definiu biodiversidade como a variedade de ecossistemas, de espécies e de genes (diversidade genética dentro de cada espécie, como as raças de cães, por exemplo).


Por que 2010 foi escolhido como o Ano Internacional da Biodiversidade pela Organização das Nações Unidas (ONU)?

Cada vez mais, a sociedade percebe a importância da diversidade biológica. Mas mesmo assim, o mundo não vai conseguir cumprir as metas de preservação estabelecidas em 2002, com vencimento previsto para 2010. Assim, o Ano Internacional da Biodiversidade representa a maior consciência da população e o esforço para que sejam estabelecidas e cumpridas novas metas de redução significativa da perda da biodiversidade.


Como a perda da biodiversidade afeta as pessoas?

Quando falamos em natureza, as pessoas pensam nos ambientes onde existe vida. Perder a diversidade de vida representa prejuízos culturais, éticos e materiais. Os prejuízos culturais e éticos são mais difíceis de mensurar: é uma agressão não permitir que as próximas gerações conheçam a beleza das cataratas do Iguaçu, o corcovado, o pantanal, as praias virgens, o tigre e os recifes de coral. Mas também há valores econômicos relacionados à natureza e ao fim da diversidade biológica e, em 2010, estamos debatendo isso. Um bom exemplo é a qualidade da água. A água que vem de uma nascente de floresta, filtrada de maneira natural, é muito mais pura do que a proveniente de uma estação de tratamento ou aquela que passa por plantações com agrotóxicos.


Esses benefícios gerados pela natureza são os chamados serviços ecológicos?

Exatamente. Podemos citar uma infinidade de serviços ecológicos, como pesquisa de novas espécies para usos médicos e cosméticos. No entanto, estamos destruindo em uma escala tal que acabamos com espécies antes mesmo de conhecê-las. É preciso considerar o valor econômico dos serviços ecológicos para preservá-los. Não podemos calcular o produto interno bruto (PIB) do Brasil sem incorporar o valor dos biomas, da biodiversidade, dos serviços de ecossistemas. Nos estudos de viabilidade de grandes obras, como a usina hidrelétrica de Belo Monte, temos sempre que contabilizar o valor econômico que se perde com a diminuição da biodiversidade. Segundo a ONU, a perda econômica causada pelo desmatamento no mundo é de US$ 2 trilhões a US$ 4,5 trilhões por ano. O investimento necessário para a preservação das matas seria de US$ 45 bilhões por ano: cem vezes menos do que o que se perde atualmente. Mas minha estimativa é que hoje os países investem somente de 10% a 20% do necessário. Se os países desenvolvidos cumprissem os seus compromissos, assumidos em convenções internacionais, esse financiamento aumentaria em cem vezes.


Qual o papel do Brasil na preservação da biodiversidade?

Em 2002, foi criado o primeiro Plano Estratégico que estabeleceu as metas de redução significativa da perda da biodiversidade em todo o mundo. O Brasil foi além e, em 2006, definiu suas próprias metas – mais específicas e mensuráveis do que as globais. Como a perda de habitats é o principal fator de diminuição de biodiversidade, o Brasil estabeleceu que 10% das áreas de nossos biomas deveriam ser convertidas em unidades de conservação. Na Amazônia, a meta é ainda mais ousada, de 30%. Nosso país pode liderar uma nova economia, baseada em valores sustentáveis. Deveríamos ser o principal líder, pois temos a maior biodiversidade do mundo, potencial de produção de alimentos e de fontes de energia renovável e limpa. Historicamente, o Brasil não exerce seu potencial de forma adequada. Não vamos cumprir nossas próprias metas, não apresentamos de forma correta nossas iniciativas nos eventos internacionais e não lideramos novos modelos de economia verde, baseada em princípios sociais e ambientais mais justos.


Como a repartição de benefícios e as áreas protegidas contribuem para a preservação da biodiversidade?

Repartição de benefícios é o tema mais polêmico nas convenções internacionais e o que menos teve avanços. Nesse ponto, o Brasil tem feito um bom trabalho e, em 2010, está liderando a discussão para mostrar aos países desenvolvidos que é preciso recompensar as comunidades pela preservação e pelo uso da biodiversidade e dos recursos genéticos. Nosso país também reclamou mais recursos para a criação de áreas protegidas. Os países mais desenvolvidos e com menos biodiversidade deveriam contribuir muito mais, financeiramente, para a conservação. O Brasil pediu o aumento desse financiamento em 50 vezes e, entre 2003 e 2009, criou mais áreas protegidas do que todos os outros países juntos.


Qual a situação atual dos biomas brasileiros?

Não vamos cumprir as metas estabelecidas para 2010. O que estamos discutindo como objetivo para 2020 é acabar com a perda da biodiversidade, e não apenas reduzi-la. Isso significa desmatamento zero e o fim da conversão de biomas para outros fins. Além disso, esperamos ter 20% de áreas protegidas em todo o mundo. No Brasil, o cerrado é o bioma mais ameaçado: restam de 30% a 40% do bioma preservado, o desmatamento anual é de 20 mil quilômetros quadrados, duas vezes maior que a amazônia, e as áreas protegidas são pouco mais de 6%. Na mata atlântica, a degradação atual não é tão grande, mas restam apenas 7% do bioma preservado. O pantanal e a zona marinha têm só 1% de áreas protegidas e a amazônia, 25%. Queremos que os 80% da amazônia que ainda restam sejam conservados.




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