Pampas
Por José Alberto Gonçalves
O único bioma brasileiro situado nos limites de um único Estado é o Pampa, que ocupa a metade sul do Rio Grande do Sul, ou 63% do território gaúcho. Predomina no bioma a vegetação de campos, onde há muitos arbustos e gramíneas.
Esse tapete verde estende-se para Argentina e Uruguai e mesmo para a metade norte do Estado e Santa Catarina. Nessas duas últimas regiões, contudo, os campos pertencem oficialmente ao bioma Mata Atlântica.
Como aponta o estudo Áreas prioritárias para conservação, uso sustentável e repartição de benefícios da biodiversidade brasileira, publicado em 2007 pelo Ministério do Meio Ambiente (MMA), por ser um conjunto de ecossistemas muito antigos, o Pampa possui muitas espécies exclusivas (endêmicas) em sua flora e fauna e grande biodiversidade.
Há no bioma em torno de 3 mil espécies vegetais, mais de cem espécies de mamíferos e quase 500 de aves, segundo o MMA. Entre as inúmeras espécies endêmicas, estão o tuco-tuco (um roedor), o beija-flor-de-barba-azul e o sapinho-de-barriga-vermelha. Das espécies ameaçadas de extinção, destacam-se o veado-campeiro, o cervo-do-pantanal e o picapauzinho-chorão.
Fora de foco
Por não ser uma formação florestal, o Pampa não tem sido tratado como área prioritária para a conservação. Apenas 0,3% dos seus 176 mil quilômetros quadrados, encontram-se protegidos por unidades de conservação (UCs), de acordo com a reportagem “País atingirá metas de conservação?”, de Aldem Bourscheit, publicada por O Eco em 10 de março de 2009.
Na reportagem, o repórter apresenta resultados de levantamento efetuado com base em dados do MMA e do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). O baixo percentual faz dele o bioma proporcionalmente com menor área protegida no Brasil.
A biodiversidade do Pampa tem declinado bastante desde o começo da década de 1970 em virtude da expansão acelerada da atividade agropecuária e nos últimos anos pelo plantio de eucalipto.
Segundo o último Censo Agropecuário do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), realizado em 2006, um quarto da vegetação dos campos no Pampa foi eliminada para dar lugar ao cultivo de arroz, a espécies exóticas de capim e ao plantio de eucalipto entre 1970 e 1996.
Para implantar lavouras de arroz, são drenados os banhados, áreas alagadas que compõem um dos ecossistemas do bioma Pampa e são fundamentais para regular o ciclo da água e na reprodução de espécies animais.
Já a pecuária degrada os campos nos lugares em que é praticada em sistema mais intensivo (com uma concentração maior de animais). Outro problema relacionado à pecuária é o capim exótico introduzido para alimentar o gado. Onde é desenvolvida de maneira extensiva (animais espalhados em grandes áreas), a pecuária ajuda a preservar a vegetação nativa, o que a torna potencial aliada nos esforços para impedir que o Pampa continue sendo prejudicado.
Pecuária produtiva pode ajudar bioma
Há boas perspectivas de conservação para o bioma. Mapeamento realizado em 2002 para o MMA revelou que 41% da área do bioma apresenta razoável estado de conservação. Trata-se de taxa mais alta que a verificada, por exemplo, na Mata Atlântica, que possui apenas 7% de seu domínio com vegetação bem conservada.
Como explica Heinrich Hasenack, que coordenou o trabalho e é professor do Laboratório de Geoprocessamento do Centro de Ecologia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), é possível melhorar ainda mais o estado de conservação do pampa limitando a expansão do rebanho bovino.
“A produção de carne bovina poderia aumentar três vezes sem a necessidade de ampliar o rebanho. Isso seria possível com a melhoria no manejo do gado e sem utilizar espécies exóticas no pasto”, ensina Hasenack.